Pesquisadores da UEPG descobrem nova espécie de molusco fóssil de 400 milhões de anos em Ponta Grossa

Pesquisadores da UEPG descobrem nova espécie de molusco fóssil de 400 milhões de anos em Ponta Grossa

Imagem: Arquivo pessoal / Bem Paraná

 

Uma importante descoberta científica coloca em destaque os primeiros seres vivos que habitaram o território paranaense. Um estudo liderado por pesquisadores da Universidade Estadual de Ponta Grossa (UEPG) confirmou a identificação de uma nova espécie de molusco fossilizado, batizada de Actinopteria grahni, encontrada na região dos Campos Gerais. O achado foi publicado na última edição da Historical Biology, um prestigiado periódico científico de Paleobiologia do Reino Unido.

O fóssil, que data do Período Devoniano — cerca de 400 milhões de anos atrás —, foi localizado em um conhecido sítio paleontológico no Jardim Giana, em Ponta Grossa, em um afloramento rico em materiais biológicos conhecido desde a década de 1980 como "Curva 2". O trabalho de investigação e análise levou cerca de um ano e meio até a aceitação e publicação internacional.

Detalhes da descoberta e parcerias

O projeto foi conduzido pelo professor Elvio Pinto Bosetti e pelo doutorando em Geografia Kevin William Richter, ambos integrantes do grupo de pesquisa Palaios de Paleontologia Estratigráfica da UEPG. Para detalhar a anatomia e a distribuição do animal, a equipe convidou os professores Sandro Marcelo Scheffler, especialista em taxonomia do Museu Nacional (UFRJ), e Renato Ghilardi, junto ao pós-doutorando Victor Rodrigues Ribeiro, ambos da Unesp de Bauru (SP).

A descoberta ocorreu por acaso. Inicialmente, o objetivo do doutorando Kevin Richter era coletar mais espécimes de outra espécie já conhecida na região, a Actinopteria langei (cujos primeiros registros na área foram feitos na década de 1960 pelo pioneiro Setembrino Petri). Ao coletar cerca de 20 novas amostras no campo, uma delas apresentou características anatômicas completamente diferentes das catalogadas na literatura científica.

"Encontrar a espécie é sorte, né? Nós mais ou menos sabemos onde procurar, mas encontrar um bicho raro é sorte", destacou o professor Elvio Bosetti.

O antigo mar paranaense e diferenças anatômicas

Para confirmar que se tratava de uma nova espécie, os cientistas compararam minuciosamente o contorno da concha, a expansão posterior e a ornamentação das linhas. O principal diferencial da Actinopteria grahni é a presença de uma "aurícula lobular" bem desenvolvida na margem anterior da concha, estrutura que é extremamente reduzida ou ausente nos outros espécimes brasileiros.

Os pesquisadores explicam que, há 400 milhões de anos, a região dos Campos Gerais era o fundo de um imenso mar calmo e raso que cobria a chamada Bacia do Paraná — uma área sedimentar de 1,6 milhão de km² que se estendia da Argentina até o Tocantins. Os animais viviam parcialmente enterrados no substrato arenoso. Segundo o professor Elvio, a preservação desses fósseis se deve a tempestades marítimas catastróficas da época, que soterravam e matavam a fauna local de forma repentina, criando o registro fóssil.

Homenagem e impactos econômicos

O nome escolhido para o molusco (Actinopteria grahni) é uma homenagem póstuma ao professor sueco Carl Yngve Grahn, falecido em 2025. Grahn colaborou por mais de duas décadas com o laboratório da UEPG e foi um dos principais responsáveis por projetar internacionalmente as pesquisas geológicas realizadas na Escarpa Devoniana do Paraná.

Além do ganho científico e acadêmico para a compreensão da evolução biológica, o mapeamento e o conhecimento profundo desses antigos mares trazem forte interesse para o setor produtivo. Entender as condições ambientais do passado ajuda a mapear áreas com grande acúmulo de matéria orgânica fóssil, o que funciona como um indicativo geológico fundamental para a localização de reservas de gás natural e petróleo, otimizando e barateando custos de exploração energética.

O grupo de pesquisa Palaios, responsável pelo estudo, foi fundado no ano 2000, é credenciado pelo CNPq e conta atualmente com 17 pesquisadores doutores de sete universidades diferentes, realizando expedições científicas em estados de quase todas as regiões do Brasil.

Via: Bem Paraná

 

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